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quarta-feira, 29 de maio de 2019

Rúbrica As Portuguesas mais desconhecidas de sempre - D. Mahaut de Sabóia.

Em termos básicos, a Idade Média Portuguesa é cheia de pequenos acontecimentos quotidianos perdidos no esquecimento, mas o simples facto de se nascer mulher na Idade Média é sêlo de garantia para se ser invisível.

As mulheres reais, quase todas, enfim, nasceram para dar à luz a herdeiros, sendo que há umas quantas referências a doações ou lendas, mas quase só existiram para se saber que o rei não sei das quantas foi filho do rei X e da rainha Y, e não foi produção espontânea.

Quando tinham vontades ou opiniões, eram apelidadas de bruxas pelos escritores da História da altura, homens e, geralmente, com a função de monges: virgens, inexperientes e rebarbados, cof cof cof...

A nossa primeira rainha oficial foi D. Mahaut de Sabóia, chamada Mafalda, Matilde ou, como nos textos da altura, Mahalda, por falta de sinónimo na Língua Portuguesa.

Terá nascido em 1125, na zona de Sabóia e Piemonte, e era uma das filhas de Amedéé III , aficionado das cruzadas, e de D. Mahaut de Albon, Condes de Sabóia, Piemonte e Maurienne, que engloba os actuais Sabóia, na França, e Piemonte, em Itália.

Primeira rainha, que casou, obviamente, com D. Afonso Henriques. Crê-se que esta escolha possa ter sido algo polémica, mas muito lógica para os desejos de D. Afonso Henriques. Escolheu uma filha de Condes, o que significaria que era alguém de uma condição inferior mas, na verdade, ela era sobrinha do Rei de França, uma potência da época, e vinda de um reino distante. Em suma, D. Afonso Henriques escolheu alguém que não lhe ia dar dor de cabeça por ser 1) prima direita e 2) herdeira de um dos Reinos da Península Ibérica que estivesse à espera de oportunidade para deitar a unha ao recém formado reino de Portugal. E ter um sogro freak das Cruzadas era afirmar-se junto do Papa como inimigo dos Infiéis, que era requisito obrigatório para se estar na elite europeia.

O contrato de casamento foi elaborado quando ela tinha 12 anos e ele 30, mas o casamento só foi celebrado 9 anos depois. Obviamente, D. Afonos Henriques já se tinha afeiçoado anteriormente e tinha dois filhos de D. Chamôa Gomes, que era descendente dos Trava, viúva com 3 filhos, freira e, provavelmente, com uma vida particular bastante interessante; mas D. Afonso Henriques não podia casar com ela por motivos óbvios, a bem da independência do reino.

Também o conceito de casamento real era diferente. Até ainda há poucos anos se seguiam certas regras rígidas: o príncipe Harry escolher uma mulher mais velha e divorciada foi uma coisa impossível para o tio-bisavô dele, que foi obrigado a abdicar para casar, mas na Idade Média chegava a extremos.

Ninguém casava por amor. O casamento era um contrato comercial, para união de fortunas, territórios ou influências, e os noivos quase só se conheciam na data do casamento. Faz um bocado de confusão às nossas cabeças ver o conceito de relações na Idade Média com a lupa dos dias de hoje e ficamos escandalizados com a quantidade de reis que mijavam tantas vezes fora do penico mas, na altura, o casamento era um contrato, sexo era sexo, e o amor era uma coisa estranha, até porque as pessoas não tinham o hábito de se lavar na altura, e fazer uma tapeçaria de 8 por 8 para tapar aquela parede da alcáçova era mais excitante do que ver D. Afonso Henriques de ceroulas ("Oh, sim, 8 por 8, já estou a revirar os olhos de excitação!").

Em 12 anos de casamento, D. Afonso e D. Mahaut tiveram, pelo menos, 7 filhos, embora apenas 3 tenham chegado a adultos: Henrique (n.1147, f. 1155), Urraca (n.1148, f. 1211), Teresa (n. 1151, f. 1218), Mafalda (n.1153, f. 1162), Martinho, depois Sancho (n. 1154, f. 1211), João (n.1156, f. 1163) e Sancha (n. 24/Setembro/1157, f. 1167). Terão vivido no território da época, a norte do Tejo, mas provavelmente na zona entre o Douro e o Minho, algumas vezes em Coimbra e ao longo do rio Tejo, essencial para fortalecer a fronteira.

D. Mahaut criou os filhos ilegítimos do rei junto com os seus, prática comum para a época. D. Afonso Henriques teve mais filhos depois de enviuvar (ainda viveu mais 27 anos), mas não durante o casamento, o que dá a entender que era respeitador e que se terá portado bem.

Da personalidade da rainha, o pouco que se escreveu foi ou pela pêna dos escrivãos reais, que simplesmente a mencionam, ou um religioso de Coimbra, um tal de Padre Teotónio, que nunca tinha privado com um exemplar do sexo feminino na vida dele, e que a tomou de ponta porque ela embicou que havia de visitar os claustros, e ele dizia que não podia ser minha senhora, e apareceram umas quantas histórias em que ela era frustrada, infeliz, mal humorada e levava porrada do marido, e já se sabe que a Bíblia diz que as mulheres são enviadas pelo Demo. Isto são só teorias, é claro...

Outros relatos referem-se a doações e obras de caridade e religiosas, o habitual para as senhoras da classe alta da época, e uma lenda em que ela ia a passar no Marco e que lhe deram uma caninha para beber a água do rio sem tirar os costados da carroça e ela terá dito "guardem a cana, porque às vezes a cana é boa" e pimbas, Marco de Canavezes!

Morreu com apenas 32 anos (o que era óptimo para a época!), a 3 de Dezembro de 1157, alguns dias depois do parto da Infanta D. Sancha, em Coimbra, e foi sepultada em Santa Cruz, onde se foi juntar D. Afonso Henriques alguns anos depois.

Se ter filhos nos dias de hoje já não é fácil, em alguns casos, na Idade Média era uma roleta russa que nem sempre acabava bem, e era causa de morte de muitas mulheres.

Só alguns séculos mais tarde recebemos na nossa Casa Real outro elemento da Casa Real de Sabóia, D. Maria Pia de Sabóia, nascida em Turim em 16 de Outubro de 1847 e que casou com o Rei D. Luís.





sábado, 9 de março de 2019

As Portuguesas mais desconhecidas de sempre. Dona Maria França.

A ideia era colocar isto ontem, Dia Internacional da Mulher e rebéubéu pardais ao ninho, vamos dar florzinhas e combinar jantaradas com strippers, sendo que depois há outras que rangem os dentes mentalmente, porque sabem que, há 100 anos atrás, a senhora do banco que recebeu a flor havia de estar em casa a lavar as ceroulas do marido e nem pensar em trabalhar num banco, vamos ver se o ordenado é justo, pelo menos, e que em 1908 uma data de mães de família, irmãs, filhas, avós de alguém, morreram queimadas num edifício porque se atreveram a pedir direitos no trabalho escravo a que estavam sujeitas, e alguém que ganhou um karma pesadíssimo se lembrou de as fechar lá dentro.

Adiante, ouvi dizer que defender os direitos daqueles que tem menos é feminismo, e o feminismo, nos dias de hoje, é pecado maior que o feminicídio, pelo menos nas netes.

Ora, aqui esta que vos escreve já anda nisto há uns anos e tem ali uma data de papelada, que não é muita, mas é o que se consegue arranjar, acerca das figuras femininas da nossa História, com especial carinho pelas medievais, sobre as quais menos informação se consegue ainda, alas, e uma pessoa chega ao ponto em que fica um bocado indecisa com o que meter aqui.

Há uma pesquisa que me tem andado a moer os neurónios nos últimos anos: a de uma Dama Enfermeira na Grande Guerra (A Primeira), que nasceu na minha humilde cidade.

Quando estava a fazer a pesquisa genealógica na minha família, a aparar as pontas dos bisavós e tio-bisavós (antes as bisavós e as tias-bisavós, eu sou assim de feminista!) dessa época, apanhei a listagem de Torreenses que foram para as trincheiras.

Claro que, na listagem - muito mais pequena - de cargos superiores de Torreenses, levantei as orelhas quando vi o nome de uma mulher.

Como é que raio temos uma mulher, em 1916, que foi para as trincheiras como enfermeira, que saiu da Cruz Vermelha para integrar o Corpo Expedicionário Português como Alferes para poder ir para a Frente, que foi condecorada com a Ordem de Cristo por competência profissional, zelo, abnegação e dedicação, que foi a que cumpriu 648 dias de serviço e que ficou lá mais tempo, e não temos a porra de uma rua com o nome dela ou uma placa com a memória, ou a porcaria de uma estátua numa praceta, como fizeram aos outros?

Vai daí, meti-me a fazer de detective genealógico.

Tive algum sucesso, não é para me gabar, mas sou boa nisto.

Descobri a certidão de nascimento, a do irmão (Dr. Carlos França, bacteriologista, esse sim, com uma rua em Torres Vedras e uma placa comemorativa em Colares, onde viveu), a rua onde viveu, a certidão de casamento dos pais, a de casamento do irmão, uma data de informação acerca dos ascendentes da cunhada ( desde que vieram de Itália para cantar ópera no São Carlos em 1700 e troca o passo - descendentes tenho até aos anos 70, até consegui contactar com uma ex-mulher de um descendente via facebook, mas puff! - e se quiserem informação acerca dos Mazziotti de Colares, é só mandar uma mensagem, que é para esta papelada toda ter alguma utilidade, pelo menos), a ficha de CEP de D. Maria e das outras Damas Enfermeiras, umas quantas fotos, de um álbum fantástico de uma delas que consta do Arquivo da Cruz Vermelha, mas não consegui encontrar mais nada.

Tipo, nada!

Nem certidão de algum casamento (ela tinha 37 anos em 1916, levou uma vida independente e era dona do seu nariz, para casar depois de regressar, era mesmo preciso apaixonar-se, não devia ter nenhum desejo de coser meias a maridos), nem de óbito, nem cartas entre as enfermeiras, nem para onde poderá ter ido, nem registos em cemitérios, nem se terá ido viver com família, e com quem,  se exerceu enfermagem  e onde, se exerceu outra profissão e onde, nada, mesmo nada.

Sei que regressou em Julho de 1919, via terrestre, mas perdi o rasto.

Por enquanto.

Cada vez que dou uma vista de olhos aos apontamento, tenho ideias - cada vez mais bizarras, admito - do que poderá ter feito ou de onde poderá ter ido.

E não desisto enquanto não souber a história dela toda, e hei-de ter uma porcaria de uma placa comemorativa dela em Torres Vedras, e hei-de estar, toda orgulhosa, na inauguração!


As Damas Enfermeiras desta fotografia pediram para sair da Cruz Vermelha Portuguesa e para ser integradas no CEP, para poderem ir para a Frente. Ficaram no Hospital de Sangue nº 8, em Herbelles.
Nesta foto, foram formalmente inseridas no grupo militar. Há uma outra foto em que estão a assinar esta formalização.


Estas são as que foram condecoradas com a Ordem de Cristo. D. Maria França é a que está mais à direita. Um pormenor, o uso daquela bengala de apoio não era necessidade, mas estatuto, e conferido apenas aos homens que, neste caso, o foi também a algumas senhoras.